Método Montessori fora do Brasil: autonomia importa, mas a implementação faz diferença
Pesquisas em diferentes países associam práticas Montessori a resultados acadêmicos e sociais promissores, mas mostram que a implementação varia. Veja o que esses estudos podem ensinar a professores brasileiros.
Estudos recentes em escolas de países como Itália, Grécia, Canadá e África do Sul investigam resultados acadêmicos, alfabetização, inclusão e desenvolvimento infantil em contextos Montessori. Alguns relatam resultados promissores, mas também indicam que a fidelidade à abordagem, o apoio às necessidades dos alunos e o ensino explícito de certas habilidades fazem diferença. Esses achados oferecem pistas, não uma receita pronta para escolas brasileiras.
Cena hipotética: numa sala Montessori, uma criança escolhe um material de matemática na prateleira baixa, trabalha por alguns minutos e depois observa outra criança realizar uma atividade diferente. A professora acompanha o percurso sem transformar cada escolha em uma nota imediata. A cena parece simples, mas levanta questões sobre autonomia, ensino explícito e acompanhamento: o que as escolas Montessori de outros países podem ensinar a professores brasileiros?
A pesquisa recente não oferece uma receita única nem descreve uma experiência internacional que possa ser transplantada sem ajustes. Ela mostra resultados promissores em alguns contextos, diferenças importantes entre escolas e perguntas ainda abertas sobre inclusão, avaliação e fidelidade às práticas. Para quem ensina na educação básica, o valor está em olhar para esses achados com curiosidade e separar princípios úteis de conclusões que ainda precisam de confirmação.
O que é Método Montessori em escolas de outros países e por que importa para o professor
O Método Montessori é uma abordagem pedagógica associada a ambientes preparados, oportunidades de escolha e aprendizagem com autonomia, mas sua implementação não é necessariamente igual em todas as escolas. Na rotina, isso pode significar que as crianças tenham acesso a materiais organizados e realizem atividades com diferentes graus de independência, enquanto o professor observa, orienta e decide quando intervir. Os estudos reunidos aqui tratam de escolas e contextos de países diferentes; portanto, não há uma única forma internacional de praticar Montessori.
Isso importa para professores mesmo que a escola não se identifique como montessoriana. A pesquisa chama atenção para uma distinção prática: adotar alguns materiais ou permitir escolhas não equivale, por si só, a implementar de forma consistente uma pedagogia. Na Holanda, por exemplo, um estudo desenvolveu e examinou questionários para investigar práticas Montessori e encontrou sinais de que princípios da abordagem eram implementados em nível razoavelmente alto, ao mesmo tempo que apontou aspectos dos instrumentos que ainda precisavam ser aprimorados (Brouwer, 2026).
Também é importante não confundir autonomia com ausência de ensino. Em entrevistas com professores do Canadá, do México e da Itália, a alfabetização Montessori apareceu ligada à linguagem oral, ao ensino explícito e sistemático e a ambientes ricos em práticas de leitura e escrita (Beach, 2026). Esse conjunto ajuda a desfazer a ideia de que uma pedagogia centrada na criança exclui explicações planejadas ou trabalho consistente com conhecimentos.
O que a pesquisa recente mostra
Os estudos recentes apontam resultados variados: há comparações acadêmicas favoráveis, investigações sobre alfabetização e matemática, e trabalhos que examinam inclusão, movimento e práticas escolares. A leitura conjunta sugere que não basta perguntar se Montessori “funciona”; é preciso observar para quem, em quais condições, em que etapa e com que grau de implementação.
Autonomia e ensino planejado podem caminhar juntos
O estudo de alfabetização realizado com sete professores Montessori de três países investigou como eles percebem e trabalham leitura e escrita. As entrevistas, feitas durante o ano letivo de 2022–2023, foram analisadas qualitativamente. Os autores identificaram três temas: ênfase na linguagem oral, ensino explícito e sistemático e ambientes ricos em práticas de leitura e escrita. O estudo também destaca que as práticas podem se adaptar a diferentes contextos culturais e línguas (Beach, 2026).
Esse achado é útil porque desloca a conversa de uma oposição simplista entre liberdade e instrução. Na descrição dos participantes, a atenção à linguagem oral e a existência de ensino sistemático aparecem junto de ambientes que favorecem experiências de leitura e escrita. Para o professor, isso não prova que um formato específico seja superior em qualquer escola, mas oferece uma pista: a autonomia pode ser acompanhada de intencionalidade didática.
Uma revisão sistemática sobre as contribuições de Montessori para a Escola Ativa e a educação infantil examinou literatura científica e identificou temas centrais da filosofia educacional e suas conexões com a Escola Ativa. A conclusão apresentada situa o legado de Montessori como referência que continua a inspirar práticas e inovação pedagógica na educação infantil (Gonzá, 2026). Por ser uma revisão sobre contribuições e legado, ela não deve ser lida como comparação direta de resultados entre estudantes.
Resultados acadêmicos promissores, mas dependentes do contexto
Na Itália, um estudo quase-experimental comparou resultados de alunos Montessori e não Montessori em diferentes anos e coortes. Os resultados acadêmicos indicaram pontuações semelhantes ou superiores para os alunos Montessori, particularmente no 8º e no 10º ano; o resumo relata que menos de seis anos de educação Montessori foram suficientes para produzir esses resultados no contexto estudado. A relação com a implementação também variou: uma abordagem mais ortodoxa se associou a melhores resultados em matemática, enquanto uma menos ortodoxa se relacionou a resultados superiores em linguagem (Scippo, 2025).
Essa diferença entre áreas merece atenção. Ela não autoriza concluir que flexibilizar práticas melhora linguagem em qualquer escola, nem que uma implementação mais estrita garante resultados em matemática. Os próprios autores indicam a necessidade de pesquisas futuras para explorar a relação entre implementação não ortodoxa e linguagem e para verificar a hipótese de que benefícios não acadêmicos possam crescer com a duração e a fidelidade da implementação. O achado é uma associação observada naquele estudo, não uma regra pronta para aplicação.
Um estudo quase-experimental anterior, também realizado com alunos italianos, comparou grupos Montessori e não Montessori do 2º, 5º, 8º e 10º anos, em duas coortes. As pontuações dos alunos Montessori foram comparáveis ou significativamente superiores, dependendo do ano e da coorte; houve maior variabilidade nas pontuações, especialmente no 8º ano e em matemática (Scippo, 2024). Para a prática, a variabilidade importa: uma média semelhante pode conviver com trajetórias diferentes entre estudantes, o que reforça a necessidade de acompanhar mais do que um resultado agregado.
Na Grécia, uma pesquisa com crianças de 4 a 7 anos comparou a competência matemática inicial de estudantes de uma instituição Montessori com a de crianças em instituições de métodos tradicionais. As pontuações gerais foram superiores entre as crianças da instituição Montessori, especialmente na pré-escola, no jardim de infância e no primeiro ano do ensino fundamental (Siaviki, 2025). O resultado é relevante para a matemática inicial, mas se refere à amostra e à região estudadas, não a todos os programas Montessori nem a todas as crianças.
Os resultados sociais e físicos exigem olhares específicos
O estudo italiano sobre resultados não acadêmicos encontrou pontuações de empatia significativamente mais altas entre alunos Montessori do 8º ano. Esse resultado foi obtido em uma parte específica da pesquisa, com estudantes do 8º ano, e os autores pedem amostras diferentes e maiores para investigar melhor a relação entre duração, fidelidade de implementação e resultados não acadêmicos (Scippo, 2025). A empatia, portanto, aparece como um resultado promissor naquele contexto, não como consequência automática de qualquer prática que use o nome Montessori.
Na África do Sul, pesquisadores avaliaram habilidades motoras fundamentais de 105 crianças de 3 a 6 anos em três pré-escolas Montessori particulares. O desempenho geral variou de médio a acima da média, mas nenhuma área das habilidades foi dominada por todos os participantes. Os resultados por idade mostraram diferenças entre correr, deslizar, saltar, chutar e receber objetos. Os autores concluem que, mesmo em um ambiente Montessori, as crianças precisam de instrução específica para alcançar proficiência em todas as habilidades motoras fundamentais (Africa, 2024).
Esse estudo ajuda a distinguir liberdade de movimento de ensino intencional do movimento. O ambiente pode oferecer oportunidades para que as crianças se movimentem, mas isso não significa que todas as habilidades se desenvolvam plenamente sem orientação. A pesquisa não avalia uma turma brasileira, mas levanta uma pergunta aproveitável por qualquer professor: quais aprendizagens dependem de oportunidades espontâneas e quais também precisam de demonstração, prática orientada e acompanhamento?
Inclusão e necessidades diversas pedem apoio, não apenas princípios
Uma pesquisa realizada com educadores de uma escola Montessori de Ontário, no Canadá, examinou como aprimorar práticas inclusivas por meio da reflexão sobre crenças e da aprendizagem profissional contínua. Os temas identificados envolveram atitudes sobre inclusão e crenças sobre como o método Montessori pode desafiar pedagogias inclusivas. Os educadores não tinham compreensão adequada do ensino diferenciado nem de como implementá-lo; as práticas inclusivas e os ambientes de aprendizagem se beneficiaram de aprendizagem profissional contínua, progressiva e ajustada às necessidades e ao contexto da equipe (Somma, 2023).
O resultado aponta uma tensão concreta: valorizar a autonomia e reconhecer a diversidade não garante, sozinho, que o professor saiba adaptar uma atividade ou remover barreiras à participação. No estudo canadense, o desenvolvimento profissional não aparece como evento isolado, mas como processo contínuo e contextualizado. Para escolas brasileiras, a experiência pode inspirar perguntas sobre quais apoios e tempos de formação são necessários, sem importar automaticamente o referencial educacional de Ontário.
Na França, dois estudos de caso qualitativos acompanharam crianças de 4 e 5 anos com altas habilidades. Os resultados indicaram que a educação Montessori pode favorecer autonomia para realizar tarefas e interações sociais desenvolvidas no ritmo das crianças. Ao mesmo tempo, crianças com altas habilidades que enfrentam dificuldades psicomotoras ou comportamentais podem precisar de mais apoio, e a ausência de avaliação somativa ou formativa pode limitar a eficácia da abordagem para essas crianças (Demangeon, 2026).
Esse trabalho não permite generalizar para todas as crianças com altas habilidades: são dois casos, estudados qualitativamente. Ainda assim, evidencia uma pergunta pedagógica importante. A liberdade para avançar no próprio ritmo não substitui necessariamente a avaliação e o apoio individualizado; para saber se uma criança está aprendendo e onde encontra barreiras, o professor continua precisando de formas de observação e acompanhamento adequadas.
A implementação precisa ser observada, não presumida
O estudo holandês sobre questionários para professores buscou aprimorar instrumentos de avaliação das práticas Montessori e examinar evidências de validade para versões voltadas à Educação Infantil e ao Ensino Fundamental. Os resultados ofereceram evidências iniciais de validade, com estruturas fatoriais coerentes e confiabilidade aceitável, mas também apontaram limitações quanto à validade discriminante e convergente. Em geral, os princípios Montessori pareceram implementados em nível razoavelmente alto nos contextos examinados (Brouwer, 2026).
Os questionários foram apresentados como instrumentos promissores para pesquisa e reflexão sobre a prática, mas ainda necessitam de aprimoramento. O ponto mais amplo é que “escola Montessori” não deve ser tratada como uma categoria uniforme. O estudo italiano sobre perfis de implementação também identificou três grupos de professores, dos quais apenas um — metade da amostra — aderiu estritamente às práticas montessorianas (Scippo, 2025). Comparar resultados sem considerar essa variação pode esconder diferenças importantes na experiência que cada escola oferece.
Um estudo sobre os primeiros seis anos de vida procurou analisar as relações entre opiniões e aplicação dos princípios Montessori em ambientes educacionais e familiares, considerando o grau de compromisso da escola com a pedagogia (Macia-Gual, 2023). O resumo descreve a questão investigada, mas não apresenta resultados específicos. Por isso, ele ajuda a incluir a relação entre família e escola na agenda de reflexão, sem servir de evidência para afirmar que determinado tipo de parceria produziu um efeito.
Os estudos lado a lado
Os estudos abaixo diferem em objetivo e desenho: alguns comparam resultados de estudantes, outros investigam práticas, casos ou instrumentos de avaliação. A tabela resume o que cada resumo permite afirmar, sem tratar métodos diferentes como se respondessem à mesma pergunta.
| Estudo | O que investigou | O que relata | Contexto |
|---|---|---|---|
| Beach, 2026 | Percepções e práticas de alfabetização de professores Montessori. | Três temas: linguagem oral, ensino explícito e sistemático e ambientes ricos em leitura e escrita. | Sete professores no Canadá, México e Itália; entrevistas em 2022–2023. |
| Brouwer, 2026 | Validade de questionários docentes e implementação de princípios Montessori. | Evidências iniciais de validade, confiabilidade aceitável e implementação em nível razoavelmente alto; permanecem limitações nos instrumentos. | Países Baixos; Educação Infantil e Ensino Fundamental. |
| Scippo, 2025 | Resultados acadêmicos e não acadêmicos, duração e fidelidade de implementação. | Pontuações acadêmicas semelhantes ou superiores em alguns contextos; associação distinta da implementação com matemática e linguagem; empatia mais alta no recorte estudado. | Itália; coortes escolares e estudantes do 8º ano. |
| Siaviki, 2025 | Competência matemática inicial de crianças de 4 a 7 anos. | Pontuações superiores para o grupo Montessori, especialmente em etapas iniciais. | Leste de Tessalônica, Grécia; 142 estudantes. |
| Scippo, 2024 | Resultados de alunos Montessori e não Montessori em testes de matemática e língua. | Pontuações comparáveis ou superiores, dependendo do ano e da coorte; maior variabilidade em determinados recortes. | Itália; 2º, 5º, 8º e 10º anos, duas coortes. |
| Africa, 2024 | Proficiência em habilidades motoras fundamentais. | Desempenho geral de médio a acima da média, com habilidades ainda não dominadas por todos; recomenda instrução específica. | Três pré-escolas particulares no Cabo Ocidental, África do Sul; crianças de 3 a 6 anos. |
| Macia-Gual, 2023 | Relações entre princípios Montessori, escola e família nos seis primeiros anos. | O resumo informa o objetivo e o foco, sem apresentar resultados específicos. | Educação infantil; contexto geográfico não indicado no resumo. |
| Somma, 2023 | Reflexão de educadores sobre práticas inclusivas. | Identificou lacunas sobre ensino diferenciado e benefícios da aprendizagem profissional contínua e contextualizada. | Uma escola Montessori de Ontário, Canadá. |
| Demangeon, 2026 | Aprendizagem e integração social de crianças com altas habilidades. | Dois casos sugerem autonomia e interações no próprio ritmo; alguns desafios exigem apoio e avaliação. | França; duas crianças de 4 e 5 anos. |
| Gonzá, 2026 | Contribuições de Montessori para a Escola Ativa e educação infantil. | Aponta a relevância contínua do legado e suas conexões com inovação pedagógica. | Revisão sistemática da literatura; busca em Web of Science e Scopus. |
Pontos em comum e divergências entre os estudos
O conjunto sugere que a experiência Montessori não se resume a deixar a criança escolher atividades. Em alfabetização, aparecem linguagem oral e ensino sistemático; na inclusão, a formação dos educadores e o ensino diferenciado surgem como necessidades; nas habilidades motoras, os autores defendem instrução específica. Em diferentes áreas, portanto, a autonomia convive com planejamento, observação e intervenção pedagógica (Beach, 2026; Africa, 2024; Somma, 2023).
Outra convergência é que os resultados variam com o recorte estudado. As pesquisas italianas relatam desempenhos acadêmicos comparáveis ou superiores, mas também diferenças por área, ano, coorte e perfil de implementação. A pesquisa grega encontra resultados favoráveis em matemática inicial, enquanto o estudo sul-africano identifica habilidades motoras que ainda precisam ser desenvolvidas. Não são contradições diretas: cada estudo analisa aprendizagens, idades e contextos diferentes.
Uma tensão importante está entre liberdade de ritmo e necessidade de avaliação. Os casos franceses apontam que a ausência de avaliação somativa ou formativa pode limitar a eficácia para crianças com altas habilidades; o trabalho sobre implementação holandês, por sua vez, trata de instrumentos para que professores examinem as próprias práticas. Os resumos não resolvem qual modelo de avaliação combina melhor com Montessori, mas tornam difícil defender que acompanhar a aprendizagem seja dispensável.
Também não está resolvido se maior fidelidade às práticas Montessori produz melhores resultados em todas as áreas. Na Itália, a implementação mais ortodoxa se associou a resultados melhores em matemática, e a menos ortodoxa, a resultados superiores em linguagem; os autores pedem pesquisas futuras para explorar essa relação (Scippo, 2025). A interpretação mais prudente é que fidelidade e adaptação precisam ser estudadas junto com o conteúdo, os estudantes e o contexto, não julgadas por um único indicador.
O que isso significa para a sala de aula
Os estudos não fornecem um roteiro de aula pronto para escolas brasileiras. As propostas a seguir são aplicações possíveis inspiradas nas questões que eles levantam, não resultados comprovados pelas pesquisas citadas.
1. Planeje escolhas com um objetivo de aprendizagem visível
Aplicação possível: ofereça duas ou três formas de praticar o mesmo conteúdo, explicando o que cada atividade permite aprender. Numa cena hipotética de 5º ano, estudantes escolhem entre representar frações com peças, desenhar modelos ou resolver situações-problema. A escolha amplia a participação, mas o professor ainda observa se o conceito está sendo compreendido. Essa combinação conversa com a coexistência entre autonomia e ensino explícito descrita pelos professores de alfabetização (Beach, 2026), sem afirmar que esse formato tenha sido testado pelo estudo.
2. Inclua momentos explícitos de explicação e demonstração
Aplicação possível: antes de uma atividade independente, faça uma demonstração curta do procedimento e deixe espaço para que os estudantes pratiquem e retomem a explicação. Numa turma hipotética de alfabetização, a professora pode modelar como ouvir os sons de uma palavra e organizar letras para escrevê-la, depois acompanhar diferentes tentativas. A sugestão se inspira no tema do ensino explícito e sistemático identificado por Beach (2026); não é uma recomendação direta dos autores para uma sequência didática brasileira.
3. Observe a variação entre estudantes, não apenas a média da turma
Aplicação possível: ao corrigir uma atividade, anote quais estudantes já realizam a tarefa com autonomia, quais precisam de uma pista e quais ainda encontram uma barreira específica. Em uma turma hipotética de 8º ano, uma mesma média em matemática pode esconder percursos distintos. A variabilidade nas pontuações relatada no estudo italiano mostra por que pode ser útil olhar além do resultado agregado, embora não determine qual instrumento de acompanhamento o professor brasileiro deve usar (Scippo, 2024).
4. Ensine habilidades que o ambiente, sozinho, não garante
Aplicação possível: em atividades de movimento, crie oportunidades de prática e ensine cada habilidade de forma intencional. Uma turma hipotética de educação infantil pode alternar brincadeiras livres com demonstrações e tentativas orientadas de saltar, lançar ou receber uma bola. O estudo sul-africano encontrou habilidades motoras ainda não dominadas por todas as crianças, mesmo em pré-escolas Montessori, e recomenda instrução específica (Africa, 2024). A adaptação concreta deve considerar espaço, segurança e necessidades do grupo.
5. Faça da inclusão um processo de equipe
Aplicação possível: escolha uma barreira que esteja dificultando a participação e discuta com a equipe alternativas de acesso, materiais e formas de resposta. Numa situação hipotética, uma criança compreende a proposta, mas tem dificuldade para manipular o material; o grupo pode avaliar outras maneiras de participar e verificar se a aprendizagem pretendida continua acessível. O estudo de Ontário aponta benefícios da aprendizagem profissional contínua e ajustada às necessidades dos educadores, além de identificar lacunas no ensino diferenciado (Somma, 2023).
6. Use observação para decidir quando oferecer apoio
Aplicação possível: registre o que o estudante tenta fazer, em que ponto interrompe a atividade e que tipo de ajuda permite avançar. Em uma cena hipotética, uma criança conclui tarefas com rapidez, mas evita interações com os colegas; a observação pode ajudar a professora a pensar em apoios sem presumir que autonomia significa trabalhar sempre sozinho. Os casos franceses sugerem benefícios de autonomia e interação no próprio ritmo, mas também indicam que algumas crianças podem necessitar de mais apoio (Demangeon, 2026).
7. Trate a fidelidade como pergunta de reflexão, não como rótulo
Aplicação possível: em vez de classificar a própria escola como “Montessori de verdade” ou “não Montessori”, a equipe pode discutir quais práticas estão presentes, o que se pretende alcançar e quais ajustes são necessários. Uma reunião hipotética pode comparar como os estudantes escolhem tarefas, como recebem explicações e como a equipe acompanha a aprendizagem. Os estudos holandês e italiano mostram que a implementação varia e que instrumentos de avaliação ainda podem precisar de aprimoramento (Brouwer, 2026; Scippo, 2025).
O que muda no contexto brasileiro
Os achados vêm de sistemas educacionais e comunidades diferentes do Brasil: há estudos na Itália, na Grécia, na África do Sul, no Canadá, no México, nos Países Baixos e na França. Mudam a organização das escolas, as línguas, os recursos e os referenciais locais. O estudo de Ontário, por exemplo, se relaciona a um referencial provincial canadense para a primeira infância; ele não descreve uma política brasileira nem deve ser aplicado como se definisse as obrigações de nossas escolas (Somma, 2023).
Também há diferenças de etapa. Alguns resultados dizem respeito a crianças pequenas e alfabetização inicial; outros comparam estudantes do 2º ao 10º ano. Uma conclusão sobre competência matemática entre crianças de 4 a 7 anos na Grécia não responde automaticamente a uma questão sobre matemática no ensino médio brasileiro. Da mesma forma, resultados observados em escolas italianas com perfis de implementação diferentes não permitem prever o desempenho de uma escola brasileira que adote apenas algumas práticas.
Uma adaptação cuidadosa começa pelo problema concreto da turma. Se a questão é a participação, o professor pode observar quais escolhas estão ao alcance dos estudantes e quais apoios faltam. Se é alfabetização, pode considerar como combinar conversa, ensino sistemático e oportunidades reais de ler e escrever. Se é movimento, pode planejar oportunidades e instrução específica. Essas são possibilidades de aplicação inspiradas nos estudos, não efeitos comprovados no Brasil.
Convém ainda evitar a ideia de que um nome pedagógico garante inclusão ou bons resultados. A pesquisa canadense mostra que educadores que valorizam inclusão podem ainda precisar de apoio para compreender e implementar ensino diferenciado. Os casos franceses lembram que estudantes com altas habilidades podem ter necessidades variadas e que avaliação e suporte continuam relevantes. No contexto brasileiro, as decisões devem levar em conta as necessidades da comunidade escolar, as condições reais de trabalho e os objetivos de aprendizagem definidos pela escola.
Limites desta leitura
Este artigo se baseia nos resumos de dez estudos recentes, e não na leitura integral de cada publicação. Os resumos permitem identificar objetivos, alguns métodos e resultados principais, mas não apresentam todos os detalhes necessários para avaliar instrumentos, procedimentos, análises ou condições de cada investigação. Por isso, as conclusões foram mantidas no alcance que os resumos permitem: não se apresentam relações observadas como causas nem se generalizam resultados de amostras específicas para todas as escolas.
Ficam abertas perguntas sobre quais práticas produzem determinados resultados, como a fidelidade à implementação se relaciona com cada área de aprendizagem e quais formas de avaliação são mais adequadas a ambientes Montessori. Também faltam, nos resumos apresentados, respostas comuns para comparar todos os países e etapas sob as mesmas medidas. No caso de Macia-Gual, o resumo apresenta a questão investigada, mas não traz resultados específicos, então o estudo foi usado somente para situar o foco escola-família. Para decidir mudanças de currículo, formação ou avaliação, ou para compreender limites metodológicos, faz sentido consultar os estudos completos.
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Perguntas frequentes sobre o Método Montessori em outros países
As pesquisas mostram que o Método Montessori melhora o desempenho acadêmico?
Alguns resultados são promissores, mas não permitem uma resposta universal. Estudos italianos relatam pontuações Montessori comparáveis ou superiores às de grupos não Montessori, dependendo do ano e da coorte (Scippo, 2024; Scippo, 2025). Na Grécia, crianças de 4 a 7 anos da instituição Montessori tiveram pontuações superiores em competência matemática inicial, especialmente em etapas iniciais (Siaviki, 2025). São contextos e desenhos distintos. Os estudos não provam que qualquer escola que use o método obterá os mesmos resultados nem que a abordagem seja superior para todas as áreas e estudantes.
Montessori significa que o professor não ensina diretamente?
Não é isso que os estudos de alfabetização relatam. Em entrevistas com sete professores do Canadá, do México e da Itália, apareceram tanto a ênfase na linguagem oral quanto o ensino explícito e sistemático, além de ambientes ricos em leitura e escrita (Beach, 2026). Isso sugere que autonomia e instrução planejada podem coexistir. O estudo descreve percepções e práticas de professores participantes; não estabelece um modelo obrigatório para todas as escolas. Como aplicação, um professor pode oferecer escolhas dentro de objetivos claros e incluir demonstrações ou explicações quando forem necessárias.
As escolas Montessori de outros países aplicam o método do mesmo jeito?
Não. Os estudos sugerem variação entre contextos e formas de implementação. Na Holanda, princípios Montessori pareceram ser implementados em nível razoavelmente alto, mas os instrumentos usados para examiná-los ainda têm aspectos a aprimorar (Brouwer, 2026). Na Itália, uma pesquisa identificou perfis diferentes entre professores, com apenas um grupo aderindo estritamente às práticas Montessori, e encontrou relações distintas com resultados em matemática e linguagem (Scippo, 2025). Por isso, é mais informativo perguntar quais práticas estão presentes numa escola do que supor que todas as instituições Montessori ofereçam a mesma experiência.
O método Montessori garante inclusão e atende a todas as necessidades?
Os estudos não permitem afirmar isso. A pesquisa em uma escola de Ontário encontrou que educadores precisavam ampliar sua compreensão do ensino diferenciado, e relatou benefícios de aprendizagem profissional contínua e ajustada ao contexto (Somma, 2023). Dois estudos de caso franceses sugerem que crianças com altas habilidades podem desenvolver autonomia e interações sociais no próprio ritmo, mas indicam que algumas podem precisar de mais apoio, sobretudo diante de desafios psicomotores ou comportamentais (Demangeon, 2026). Os resultados reforçam que princípios pedagógicos precisam ser acompanhados por decisões concretas de apoio e avaliação.
O movimento livre basta para desenvolver habilidades motoras?
O estudo realizado em três pré-escolas Montessori particulares na África do Sul indica que não se deve presumir isso. Embora o ambiente Montessori ofereça oportunidades de movimento, a pesquisa encontrou habilidades motoras fundamentais que não eram dominadas por todos os participantes. O desempenho geral variou de médio a acima da média, e os autores concluem que as crianças precisam de instrução específica para alcançar proficiência em todas as habilidades avaliadas (Africa, 2024). Para um professor, uma aplicação possível é combinar oportunidades de brincar e se movimentar com demonstrações e práticas orientadas, observando o progresso de cada criança.
Posso aplicar os resultados internacionais diretamente na minha escola?
É melhor usá-los como referência para formular perguntas e testar adaptações cuidadosas, não como garantia de resultado. Os estudos foram feitos em países, etapas e grupos diferentes, e não avaliam uma única proposta comum. Uma investigação sobre matemática inicial na Grécia não responde diretamente a uma questão de ensino médio no Brasil; uma experiência de inclusão de Ontário não substitui a análise das necessidades locais. Como aplicação, a equipe pode escolher uma prática pequena, observar a participação e a aprendizagem e rever o planejamento. Para decisões amplas, é importante ler os estudos completos e considerar o contexto escolar.
Referências
- Beach (2026). Alfabetização em escolas Montessori: perspectivas do Canadá, do México e da Itália (Literacy in Montessori Schools: Perspectives from Canada, Mexico, and Italy). Early Childhood Education Journal. https://eric.ed.gov/?id=EJ1503798
- Brouwer (2026). Implementação da educação Montessori: evidências de validade dos questionários holandeses para professores sobre práticas Montessori (Implementation of Montessori Education: Validity Evidence of Dutch Teacher Questionnaires for Montessori Practices). Journal of Montessori Research. https://eric.ed.gov/?id=EJ1516692
- Scippo (2025). Resultados da Educação Montessoriana na Itália: Avaliando o Papel Influente da Duração e da Fidelidade à Implementação (Montessori Education Outcomes in Italy: Assessing the Influential Role of Duration and Implementation Fidelity). Issues in Educational Research. https://eric.ed.gov/?id=EJ1484564
- Siaviki (2025). O Impacto do Método Montessori na Competência Matemática Inicial de Crianças Pequenas (The Impact of Montessori Method on Early Mathematical Competence of Young Children). Journal of Education and Learning (EduLearn). https://eric.ed.gov/?id=EJ1457122
- Scippo (2024). Efetividade das Escolas Montessorianas nos Anos Iniciais: Um Estudo Quase-Experimental sobre os Resultados Escolares (Montessori Primary Schools' Effectiveness: A Quasi-Experimental Study on Schooling Outcomes). School Effectiveness and School Improvement. https://eric.ed.gov/?id=EJ1425509
- Africa (2024). Proficiência em habilidades motoras fundamentais de crianças selecionadas da pré-escola Montessori na África do Sul (Fundamental Movement Skill Proficiency of Selected South African Montessorian Pre-Schoolers). Journal of Early Childhood Research. https://eric.ed.gov/?id=EJ1446973
- Macia-Gual (2023). Análise dos princípios montessorianos sob as perspectivas das escolas, dos professores e das famílias (Analysing the Montessori Principles from the Perspectives of Schools, Teachers, and Families). Center for Educational Policy Studies Journal. https://eric.ed.gov/?id=EJ1389826
- Somma (2023). “Talvez tenhamos que criar algo diferente”: promovendo a inclusão na educação Montessori (“Maybe We Have to Create Something Different”: Fostering Inclusion in Montessori Education). Exceptionality Education International. https://eric.ed.gov/?id=EJ1419047
- Demangeon (2026). Os impactos da educação Montessori na integração social e na aprendizagem de crianças com altas habilidades (The Impacts of Montessori Education on the Social Integration and Learning of Gifted Children). Journal of Early Childhood Research. https://eric.ed.gov/?id=EJ1508220
- Gonzá (2026). Maria Montessori e suas contribuições para a Escola Ativa e a educação infantil: um estudo sistemático (Maria Montessori and Her Contributions to Active School and Early Childhood Education: A Systematic Study). Educational Process: International Journal. https://eric.ed.gov/?id=EJ1500450
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