Apego na pré-escola: como funções executivas se relacionam ao bem-estar infantil
Pesquisas internacionais associam a qualidade do vínculo com o professor e as funções executivas a menos comportamentos internalizantes e externalizantes. Veja o que esses estudos sugerem — e o que ainda precisa ser investigado — para a prática docente.
Na pré-escola, o comportamento de apego aparece na relação que a criança constrói com o professor, por exemplo, ao buscar proximidade, apoio ou interação. Estudos internacionais associam a qualidade desse vínculo e o desenvolvimento das funções executivas a menos comportamentos internalizantes e externalizantes. Os achados ajudam a pensar sobre adaptação e bem-estar, mas não determinam uma única forma de agir em sala.
Na pré-escola, tanto a qualidade da relação de apego com o professor quanto o desenvolvimento das funções executivas aparecem associados a uma menor ocorrência de comportamentos internalizantes e externalizantes. Um estudo recente também encontrou um papel mediador das funções executivas nessa relação, colocando lado a lado vínculo, autorregulação e adaptação infantil (Longobardi, 2024).
Esse resultado ajuda a olhar para comportamentos que, na rotina, podem parecer desconectados: uma criança que se retrai, outra que reage com intensidade, uma dificuldade para esperar ou para voltar a uma atividade. A pesquisa não oferece uma receita única para interpretar cada situação, mas lembra que o modo como a criança se relaciona com adultos da escola e as oportunidades de desenvolver habilidades executivas fazem parte do quadro. Outros estudos internacionais ampliam a conversa para as relações com os pares, a chegada à pré-escola, o pertencimento e a formação dos profissionais.
O que é comportamento de apego em crianças da pré-escola em outros países e por que importa para o professor?
Comportamento de apego, neste conjunto de pesquisas, diz respeito às formas pelas quais a criança se relaciona com adultos significativos fora da família, incluindo professores, e busca segurança e apoio nas interações. Na escola, o tema pode aparecer na chegada, na separação da família, na aproximação do adulto, nas negociações durante uma atividade e na maneira como a criança participa do grupo. Isso não significa que o professor deva diagnosticar o vínculo: significa observar as relações como parte importante da experiência escolar.
Na perspectiva dos múltiplos vínculos, as crianças podem estabelecer relações significativas com professores e pares, além daquelas que mantêm com familiares. Por isso, o apego na pré-escola não é apenas um assunto privado ou familiar. A organização da rotina, as respostas dos adultos e a convivência com outras crianças formam o cenário em que o vínculo e a participação se desenvolvem. Um estudo com crianças da pré-escola relacionou comportamentos de apego ao professor com preferência social entre pares (Prino, 2023).
Também é importante distinguir apego de obediência ou de simpatia. Os estudos resumidos aqui tratam de relações e comportamentos observados, não de uma lista simples que permita classificar uma criança como “apegada” ou “não apegada” a partir de um episódio isolado. Para o professor, a utilidade está em pensar no que a criança faz nas interações, em que situações isso acontece e como o contexto da turma pode favorecer segurança, exploração e pertencimento.
O que a pesquisa recente mostra sobre apego na pré-escola?
Os estudos recentes apontam que o vínculo com o professor se relaciona a aspectos diferentes da experiência infantil: comportamentos ligados ao bem-estar, posição entre os pares, transição para a instituição e interpretações de pertencimento. Eles não investigam exatamente a mesma pergunta nem usam os mesmos métodos. A leitura conjunta é útil para ampliar o olhar, desde que não se transformem associações em garantias de causa e efeito.
Vínculo com o professor e funções executivas se relacionam ao bem-estar
O estudo de Longobardi e colegas investigou como a relação de apego com o professor e as funções executivas se relacionam com sintomas internalizantes e externalizantes em crianças da pré-escola. Os autores relatam que uma relação de apego de melhor qualidade e funções executivas mais desenvolvidas estão associadas a uma menor ocorrência desses comportamentos. O resumo também informa que as funções executivas desempenham um papel mediador entre o apego ao professor e os comportamentos infantis (Longobardi, 2024).
Para entender a relevância sem extrapolar o resultado, vale separar as peças. O estudo associa o vínculo e as funções executivas a comportamentos que podem expressar dificuldades voltadas para dentro ou para fora. Não afirma que um professor, sozinho, consiga eliminar esses comportamentos, nem que uma observação cotidiana seja suficiente para identificar suas causas. A conclusão apresentada pelos autores é que promover funções executivas no contexto de uma relação segura com o professor é importante para a adaptação à pré-escola e o bem-estar.
Esse achado aproxima duas dimensões que às vezes são tratadas separadamente: a relação da criança com o adulto e habilidades que participam da regulação do comportamento. Em uma aplicação cuidadosa, o professor pode refletir sobre ambas: como a criança encontra apoio para retomar uma atividade e que condições ajudam a praticar espera, flexibilidade ou controle de impulsos. Essa reflexão é uma possibilidade pedagógica, não um resultado testado diretamente pelo estudo.
O vínculo com o adulto também se desenrola entre os pares
Prino e colegas observaram comportamentos de apego de crianças da pré-escola em relação aos professores e sua associação com preferência e impacto social entre os pares. Participaram 261 crianças, com idade média de 49,6 meses, e seus professores. Observadores independentes avaliaram as crianças com a versão italiana do Attachment Q-Sort; a preferência e o impacto social entre pares foram mensurados por indicação de pares (Prino, 2023).
Os resultados indicaram associação entre a organização dos comportamentos de apego ao professor e a preferência social. De modo geral, os dados corroboraram a ideia de que esses comportamentos se relacionam tanto à preferência quanto à influência social. As dimensões mais fortemente associadas à preferência social e ao afeto social foram comportamentos relacionados à evitação, à negociação positiva e à negociação difícil com o professor. O resumo não permite converter esses termos em rótulos fixos para crianças, mas mostra que as relações com o adulto e as relações entre crianças podem estar conectadas.
Esse resultado amplia a pergunta do professor: além de “como a criança se aproxima de mim?”, pode ser útil observar “como ela participa das interações do grupo?”. A pesquisa não autoriza concluir que determinado comportamento com o adulto cause popularidade, rejeição ou influência entre pares. Ela aponta uma associação, em um contexto de pesquisa específico, e reforça que a vida social da pré-escola envolve mais de uma relação importante.
A chegada à pré-escola pode envolver família e profissionais
Um estudo sueco investigou como se organiza a transição para a pré-escola e se diferentes modelos poderiam influenciar a construção das relações entre famílias e professores e o ajustamento da criança. A pesquisa utilizou dados quantitativos e qualitativos de questionários respondidos por 535 profissionais. A organização da inserção variava entre instituições quanto à duração e à intensidade, ao momento da primeira separação entre criança e pais e ao número de crianças e profissionais envolvidos (Andersson Søe, 2023).
Os resultados sugeriram que os diferentes modelos de inserção estavam associados a formas distintas de envolver os pais. No modelo de participação ativa, as famílias participavam bastante das atividades de inserção. Segundo a percepção dos profissionais, esse envolvimento influenciou positivamente a formação das relações entre famílias e professores. A conclusão sugere que convidar os pais a participar ativamente pode ajudar a envolvê-los no processo e influenciar positivamente a construção dessas relações.
É um achado relevante para pensar a entrada da criança, mas não deve ser lido como prova de que um único formato serve para toda instituição. Os próprios autores indicam a necessidade de investigar melhor como as interações entre criança e professor e entre pais e professores influenciam a construção das relações e o ajustamento durante e depois da inserção. Para a prática, a pesquisa torna visível uma questão concreta: como a escola cria oportunidades para que família e equipe construam uma relação de trabalho desde o começo?
Pertencer envolve interações cotidianas e tensões
Um estudo realizado em cinco países europeus — Finlândia, Islândia, Países Baixos, Noruega e Suécia — investigou como educadores interpretam o pertencimento das crianças na educação infantil. A abordagem metodológica convidou os profissionais a pensar e conversar a partir de uma imagem. Os resultados explicitaram categorizações que os educadores consideravam naturais e mostraram como concebiam os contextos educativos como espaços de pertencimento (Puroila, 2023).
Opor-se, brincar em conjunto e estar sozinho foram identificados como interações carregadas de emoção e consideradas significativas para o pertencimento. Os educadores enfatizaram valores democráticos como diversidade, participação, igualdade e equidade, mas também reconheceram tensões para concretizar esses valores em um grupo diverso. A base comum da profissão mostrou-se mais significativa para as interpretações dos educadores do que as diferenças entre os contextos sociais considerados no estudo.
Esse trabalho não mede apego individual ao professor, mas ajuda a ampliar o sentido de segurança relacional na escola: pertencer não é apenas estar fisicamente no grupo ou participar de todas as brincadeiras. A possibilidade de ficar só, de discordar ou de brincar com outros também pode ser interpretada pelos educadores como significativa. Isso convida a observar a rotina sem presumir que toda criança demonstra pertencimento da mesma maneira.
Formação e consultoria podem apoiar práticas orientadas pelo apego
Nos Estados Unidos, um estudo examinou se o programa em DVD Círculo de Segurança para Pais e a consultoria posterior poderiam ampliar conhecimentos e influenciar práticas de profissionais da pré-escola. O projeto ocorreu em instituições de bairros de alto risco em Orlando, na Flórida, e arredores. Os profissionais foram avaliados antes do grupo, depois do programa e após a consultoria (Renk, 2026).
As avaliações sugeriram mudanças no modo de pensar dos profissionais e em seu estilo de interação com crianças pequenas ao longo do projeto. Os participantes também se sentiram mais confiantes em sua atuação e modificaram aspectos específicos da maneira de pensar sobre como lidar com emoções negativas das crianças. Os resultados sugerem que o programa e a consultoria podem ampliar conhecimentos sobre apego e aprimorar as interações com as crianças sob seus cuidados.
O resultado chama atenção para a formação e o apoio à equipe: segundo o resumo, profissionais que atendem crianças pequenas tendem a receber pouca formação sobre apego e pouco suporte de consultoria para aplicar princípios relacionados em contextos de pré-escola. O estudo investigou uma intervenção específica nos Estados Unidos; não demonstra que o mesmo programa, sem adaptação, produziria resultados iguais em escolas brasileiras. Ainda assim, sugere uma pergunta útil para gestores e professores: que apoio a equipe tem para refletir sobre suas interações e responder às emoções das crianças?
Quais estudos foram analisados lado a lado?
A tabela reúne os cinco estudos citados e separa o que cada um investigou do que relata. Os contextos descritos são aqueles informados nos resumos; quando o país não aparece explicitamente, isso é indicado para evitar atribuir uma origem não confirmada.
| Estudo | O que investigou | O que relata | Contexto |
|---|---|---|---|
| Longobardi, 2024 | Relação entre apego ao professor, funções executivas e comportamentos internalizantes e externalizantes. | Qualidade da relação e funções executivas associadas a menor ocorrência desses comportamentos; funções executivas com papel mediador. | Pré-escola; país não especificado no resumo. |
| Prino, 2023 | Comportamentos de apego ao professor e preferência e impacto social entre pares. | Associação entre organização dos comportamentos de apego e preferência social; dimensões específicas ligadas à evitação e às negociações com o professor. | 261 crianças da pré-escola; avaliação com versão italiana do instrumento. |
| Andersson Søe, 2023 | Organização da transição para a pré-escola, relação entre famílias e profissionais e ajustamento infantil. | Modelos de inserção variaram; a participação ativa dos pais foi percebida pelos profissionais como favorável à relação família-professor. | Suécia; questionários de 535 profissionais. |
| Puroila, 2023 | Interpretações de educadores sobre pertencimento na educação infantil. | Brincar em conjunto, oposição e estar só apareceram como interações significativas; valores democráticos convivem com tensões. | Finlândia, Islândia, Países Baixos, Noruega e Suécia. |
| Renk, 2026 | Programa Círculo de Segurança e consultoria para profissionais da pré-escola. | Avaliações sugeriram mudanças de pensamento e interação, maior confiança profissional e mudanças em ideias sobre emoções negativas. | Orlando, Flórida, e arredores, Estados Unidos. |
O que há em comum e o que diverge entre os estudos?
Em conjunto, as pesquisas tratam as relações como parte da experiência educativa, e não como um detalhe separado da aprendizagem e da participação. O vínculo com o professor aparece associado a comportamentos infantis e à posição social entre pares; a participação familiar é considerada na transição; e as interpretações de pertencimento incluem diferentes maneiras de interagir. O estudo de formação acrescenta que o modo de pensar e interagir dos profissionais pode se transformar com apoio estruturado.
Há diferenças importantes. Longobardi examina associações com sintomas e funções executivas; Prino relaciona comportamentos com preferência entre pares; Andersson Søe investiga modelos de inserção a partir das respostas de profissionais; Puroila analisa interpretações de educadores; e Renk avalia um programa e consultoria. Portanto, os estudos não medem uma mesma coisa nem permitem comparar diretamente a força de seus resultados.
Também não está resolvido como características de cada contexto, da família, da instituição e da criança se combinam ao longo do tempo. Os resumos não estabelecem uma sequência universal nem indicam que uma estratégia específica seja adequada para todas as crianças. Uma tensão especialmente útil para a prática é que pertencimento pode aparecer em interações distintas — inclusive estar só —, enquanto o professor precisa, ao mesmo tempo, oferecer oportunidades de participação sem forçar uma única forma de se integrar.
Como aplicar essas pesquisas na sala de aula?
As pesquisas oferecem ideias para observar e conversar sobre a rotina, mas as propostas abaixo são aplicações pedagógicas possíveis, não intervenções cuja eficácia tenha sido comprovada por todos esses estudos. O foco é usar os achados como perguntas para orientar a reflexão, sem transformar comportamentos observados em diagnósticos.
1. Observe padrões de interação, não episódios isolados
Uma forma de usar os estudos em sala é registrar, em momentos diferentes, como a criança busca apoio, responde a uma aproximação e retorna às atividades. Imagine uma criança que chora na chegada, mas depois participa de uma brincadeira; esse episódio, sozinho, não define seu vínculo. Anotar contexto, duração e resposta dos adultos pode ajudar a equipe a conversar com mais precisão. Essa prática de observação é uma sugestão de aplicação, inspirada na importância atribuída às relações nos estudos, e não uma medida de avaliação validada por eles.
2. Ofereça apoio e oportunidades de autonomia na mesma rotina
O achado sobre funções executivas e relação com o professor convida a pensar em atividades que combinem segurança e prática gradual de autorregulação. Como aplicação, o professor pode antecipar uma mudança de atividade, oferecer escolhas simples e apoiar a criança a esperar sua vez, em vez de exigir que ela controle tudo sem ajuda. Imagine uma brincadeira em que cada criança aguarda para acrescentar uma peça; o adulto pode narrar a sequência e apoiar a espera. A proposta não deve ser apresentada como técnica testada por Longobardi, mas como possibilidade coerente com a relação entre vínculo e funções executivas relatada.
3. Leia as relações com os pares junto das relações com adultos
Uma aplicação possível é observar em que situações a criança consegue negociar com o professor e como participa de brincadeiras com colegas. Imagine um conflito por um brinquedo: além de interromper a disputa, o adulto pode ajudar as crianças a formular alternativas e acompanhar se conseguem retomar a brincadeira. O estudo de Prino encontrou associações entre comportamentos de apego ao professor e preferência social, mas não afirma que uma intervenção de negociação aumente a preferência entre pares. A observação pode servir para planejar apoio e ampliar oportunidades de interação, sem rotular popularidade ou rejeição.
4. Planeje a transição com espaço para a participação familiar
Como aplicação, a equipe pode conversar com as famílias sobre como organizar os primeiros dias, que participação é viável e como manter a comunicação durante a inserção. Imagine uma família que precisa conciliar horários de trabalho: em vez de presumir um formato único, a escola pode explicar as possibilidades e escutar necessidades. O estudo sueco associou o modelo de participação ativa a avaliações positivas dos profissionais sobre a relação entre família e equipe; não define um cronograma universal para instituições brasileiras. A sugestão é criar comunicação clara e respeitosa, não copiar automaticamente o modelo estudado.
5. Reconheça diferentes maneiras de pertencer ao grupo
Uma aplicação inspirada no estudo europeu é observar se a turma oferece espaço para brincar com outras crianças, acompanhar antes de participar, discordar ou ficar só por um período. Imagine uma criança que prefere observar a brincadeira antes de entrar: o adulto pode acolher essa posição e manter aberta a possibilidade de aproximação, sem concluir imediatamente que ela está excluída ou não pertence. O estudo destaca interpretações dos educadores, não estabelece uma lista de sinais para medir pertencimento. A pergunta prática é se as rotinas permitem formas variadas de participação e se as regras do grupo são discutidas com atenção à diversidade.
6. Converse em equipe sobre respostas às emoções negativas
Uma forma de aplicação é reservar momentos para que profissionais compartilhem situações difíceis e comparem maneiras de responder, com foco na segurança e no respeito à criança. Imagine que uma criança se frustre ao encerrar uma atividade: a equipe pode discutir como antecipar a transição, acolher a emoção e ajudar a criança a retomar a rotina. Renk encontrou mudanças sugeridas nas avaliações após o programa e a consultoria estudados nos Estados Unidos. Isso não prova que qualquer conversa de equipe produza os mesmos resultados; indica, porém, que formação e apoio podem ser temas importantes para a gestão escolar.
O que muda quando esses estudos são lidos no contexto brasileiro?
O primeiro cuidado é não tratar os contextos internacionais como se fossem retratos das escolas brasileiras. A pesquisa sobre transição foi realizada na Suécia; a investigação de pertencimento envolveu cinco países europeus; e o estudo sobre formação ocorreu em instituições de bairros de alto risco em Orlando, nos Estados Unidos. O estudo de Prino utilizou a versão italiana de um instrumento, mas o resumo não informa o país em que a pesquisa foi realizada. Para Longobardi, o contexto nacional também não está especificado no resumo.
As rotinas de entrada, a participação das famílias, a composição dos grupos, os recursos disponíveis e as condições de trabalho podem variar entre instituições e países. Assim, a ideia de participação ativa dos pais precisa ser traduzida para as possibilidades concretas de cada comunidade, e não adotada como exigência uniforme. Da mesma forma, uma formação ou consultoria usada nos Estados Unidos não deve ser considerada automaticamente adequada ao Brasil sem conhecer sua proposta e avaliar sua pertinência local.
Para professores brasileiros, os estudos podem funcionar como referências para formular perguntas: como a escola acolhe crianças e famílias? Como os adultos respondem às emoções? Que formas de participação são reconhecidas na turma? Essas perguntas podem orientar observações e conversas entre profissionais, mas as pesquisas citadas não avaliam diretamente políticas brasileiras nem autorizam recomendações sobre regras nacionais. O que se transfere com mais segurança é a necessidade de olhar para relações e contextos; as soluções precisam considerar a realidade de cada escola.
Quais são os limites desta leitura?
Este artigo se baseia nos resumos de cinco estudos recentes, e não na leitura integral dos artigos. Os resumos oferecem informações sobre objetivos, métodos e resultados principais, mas não permitem examinar todos os instrumentos, procedimentos, análises, limitações ou discussões dos textos completos. Por isso, as conclusões foram apresentadas no alcance descrito pelos próprios resumos, distinguindo associações, percepções profissionais e resultados de avaliações.
Ficam em aberto perguntas importantes: como as relações entre professor e criança mudam ao longo do ano? Que condições favorecem a manutenção de práticas orientadas pelo apego? Como os achados se aplicam a diferentes realidades brasileiras? E que respostas são mais adequadas para necessidades individuais, sem reduzir a diversidade de comportamentos infantis a uma única explicação? Os resumos não respondem a essas questões.
Vale consultar o estudo completo quando a escola quiser adotar um programa específico, escolher um instrumento de observação, avaliar a robustez de uma associação ou adaptar práticas de outro país. Também faz sentido ler os textos integrais para compreender como foram definidos conceitos como preferência social, funções executivas e pertencimento. A leitura dos resumos ajuda a localizar achados e perguntas; não substitui a análise necessária para decisões de formação, avaliação ou intervenção.
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Perguntas frequentes sobre apego na pré-escola
O que significa comportamento de apego em relação ao professor?
Neste conjunto de estudos, o termo se refere a comportamentos e relações que a criança estabelece com professores, adultos significativos fora da família. A pesquisa não propõe classificar uma criança a partir de um comportamento isolado. Um estudo associou a organização desses comportamentos à preferência social entre pares, e outro relacionou a qualidade da relação com o professor a comportamentos internalizantes e externalizantes. Para o professor, o conceito convida a observar como a criança interage e encontra apoio na rotina, sem substituir avaliação especializada ou transformar observações em diagnóstico.
O apego ao professor pode influenciar o comportamento da criança?
Longobardi e colegas encontraram associação entre a qualidade da relação de apego com o professor, funções executivas e menor ocorrência de comportamentos internalizantes e externalizantes. O resumo relata também um papel mediador das funções executivas. Isso não significa que o professor controle sozinho o comportamento da criança ou que o vínculo explique todas as dificuldades. O resultado mostra uma relação entre fatores relevantes para a adaptação e o bem-estar na pré-escola. Os autores consideram importante promover funções executivas em um contexto de relação segura com o professor.
O que as pesquisas dizem sobre a adaptação na chegada à pré-escola?
O estudo realizado na Suécia encontrou variação entre instituições na duração e intensidade da inserção, no momento da primeira separação dos pais e no número de crianças e profissionais envolvidos. Diferentes modelos estavam associados a diferentes formas de envolvimento familiar. Na percepção dos profissionais, o modelo de participação ativa dos pais influenciou positivamente a construção da relação entre famílias e professores. Os autores indicam que ainda é necessário investigar melhor as relações entre as interações da criança e do professor, as interações entre adultos e o ajustamento infantil durante e após a inserção.
Estar sozinho significa que a criança não se sente pertencente?
Não é possível concluir isso a partir do estudo sobre pertencimento. Na pesquisa realizada em cinco países europeus, os educadores interpretaram estar sozinho, brincar em conjunto e opor-se como interações carregadas de emoção e significativas para o pertencimento. O trabalho investigou interpretações profissionais, não criou um teste para determinar se uma criança pertence ou não ao grupo. Na prática, vale observar o contexto: se a criança escolhe ficar só, se pode entrar em outras atividades quando deseja e como os adultos e os colegas respondem. Uma cena isolada não permite definir o que ela sente.
Os resultados internacionais podem ser aplicados diretamente em escolas brasileiras?
Não automaticamente. Os estudos incluem contextos da Suécia, de cinco países europeus e dos Estados Unidos, enquanto alguns resumos não especificam o país de realização. Condições de inserção, participação familiar, organização institucional e recursos podem ser diferentes no Brasil. Os resultados podem ajudar a formular perguntas sobre acolhimento, relações e pertencimento, mas não provam que um programa, modelo de transição ou prática produzirá os mesmos efeitos em qualquer escola brasileira. Antes de adotar uma intervenção, é importante conhecer o estudo completo e considerar as necessidades da comunidade escolar.
Que ideia prática o professor pode levar para a rotina?
Uma possibilidade é observar as relações da criança em mais de um momento e conversar com a equipe sobre o que acontece antes, durante e depois de situações de dificuldade. As pesquisas sugerem que vínculo, funções executivas, pares, família e pertencimento podem ser dimensões relacionadas da experiência na pré-escola. Essa observação não deve virar diagnóstico nem rótulo. Pode, sim, ajudar a equipe a pensar em oportunidades de apoio, participação e comunicação com as famílias. Trata-se de uma aplicação pedagógica inspirada nos estudos, não de uma estratégia cuja eficácia tenha sido testada por todos eles.
Referências
- Longobardi, C.; Prino, L. E.; Settanni, M.; Fabris, M. A. (2024). Apego ao professor, sintomas internalizantes e externalizantes: o papel mediador das funções executivas (Attachment to Teacher, Internalizing and Externalizing Symptoms: The Mediating Role of Executive Functions). Early Child Development and Care. Link.
- Prino, L. E.; Longobardi, C.; Fabris, M. A.; Settanni, M. (2023). Comportamentos de apego em relação aos professores e preferência social em crianças da pré-escola (Attachment Behaviors toward Teachers and Social Preference in Preschool Children). Early Education and Development. Link.
- Andersson Søe, M.; Schad, E.; Psouni, E. (2023). Transição para a pré-escola: abrindo caminhos para a construção de relações entre professores da pré-escola e famílias (Transition to Preschool: Paving the Way for Preschool Teacher and Family Relationship-Building). Child & Youth Care Forum. Link.
- Puroila, A.-M.; Emilson, A.; Pálmadóttir, H.; Piškur, B.; Tofteland, B. (2023). Interpretações de educadores sobre o pertencimento das crianças além das fronteiras: pensando e conversando com uma imagem (Educators' Interpretations of Children's Belonging across Borders: Thinking and Talking with an Image). European Educational Research Journal. Link.
- Renk, K. (2026). Promovendo pré-escolas orientadas pela teoria do apego com o Círculo de Segurança nos Estados Unidos (Fostering Attachment-Infused Preschools with Circle of Security in the United States). Early Childhood Education Journal. Link.
Se este tema conversa com sua rotina, escolha uma interação para observar com mais atenção nesta semana e compartilhe suas perguntas com a equipe. O olhar cuidadoso do professor ajuda a construir ambientes em que cada criança encontre apoio e possibilidades de participação.
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