Concessão na língua portuguesa: como ensinar e avaliar
Entenda como trabalhar a concessão em frases e textos, relacionando gramática e construção de sentidos. Veja estratégias práticas e seis questões comentadas para usar como referência na avaliação.
Lembro bem da primeira vez que tentei explicar oração concessiva para uma turma do 9º ano. Escrevi no quadro "embora chovesse, saímos", pedi que identificassem o conectivo e a ideia de oposição, e percebi que metade da sala achava que era uma causa. Foi aí que entendi que concessão é um dos conteúdos mais escorregadios da gramática, porque exige que o aluno perceba uma relação de contraste sem a conexão lógica ser óbvia.
Desde então, passei a dedicar mais tempo a esse tema e a montar atividades progressivas. Hoje, quando monto uma prova sobre o assunto, começo pelo reconhecimento dos conectivos e termino na interpretação de textos argumentativos, e foi justamente essa sequência que fui ajustando com o GeraProva ao longo do semestre.
O que é uma oração concessiva?
Oração concessiva é aquela que expressa uma ideia que, à primeira vista, deveria impedir a ação principal, mas não impede. Os conectivos mais comuns são embora, ainda que, apesar de, mesmo que e se bem que. Na prática, a frase "Embora estivesse cansado, terminou a corrida" apresenta um obstáculo (o cansaço) que não impediu o resultado (terminar a corrida). Esse contraste é o coração da concessão. Ao preparar aulas com o apoio do GeraProva, costumo começar por esse exemplo porque ele cabe em qualquer turma, do fundamental ao médio, e serve de ponto de partida para o restante do conteúdo.
Vale distinguir concessão de causa e de oposição simples. Na causa, há uma relação de motivo ("como estava cansado, parou"). Na oposição, o contraste existe, mas não há uma expectativa lógica quebrada ("ele é alto, mas ela é baixa"). A concessão se coloca no meio: existe um obstáculo que, por lógica, teria efeito, mas não tem.
Sinais de que é concessão
- O conectivo indica obstáculo superado (embora, ainda que, mesmo que).
- Se você substituir por "apesar de" e a frase continuar fazendo sentido, provavelmente é concessiva.
- A oração principal descreve algo que se esperaria não acontecer.
Como ensinar orações concessivas na prática?
Na minha experiência, o ensino funciona melhor quando sai da frase isolada e entra no texto. Começo com uma lista de frases curtas no quadro e peço que os alunos reescrevam cada uma trocando o conectivo por outro de sentido equivalente. Em seguida, peço que digam qual é o obstáculo e qual é o resultado. Esse exercício de reformulação mostra que os conectivos são intercambiáveis dentro de certas regras, o que ajuda muito na compreensão.
Depois, trabalho com textos reais: crônicas, editoriais e discursos. A ideia é que o aluno identifique onde o autor concede algo ao leitor antes de argumentar. Essa é uma habilidade que cai bastante em prova e que também é importante na produção de redações.
Passo a passo que uso em sala
- Reconhecer: destacar conectivos concessivos em frases simples.
- Reformular: trocar o conectivo e observar o efeito de sentido.
- Identificar: separar obstáculo e resultado em cada oração.
- Aplicar: usar concessão na própria produção escrita.
Quantas questões de concessão usar em uma avaliação?
Minha regra prática é de três a cinco questões sobre concessão em uma prova bimestral de língua portuguesa, combinando questões de identificação e de interpretação. Usar apenas uma questão de reconhecimento deixa pouco espaço para verificar se o aluno compreendeu a relação de sentido. Já uma prova inteira sobre o tema fica cansativa e perde a função de avaliar outras habilidades.
Com o cadastro grátis no GeraProva, consigo gerar questões variadas sobre o mesmo conteúdo em poucos minutos e ajustar o nível de dificuldade conforme a turma. Isso me poupa de escrever cada alternativa do zero e me deixa mais tempo para corrigir as respostas com calma.
Como avaliar concessão além da gramática?
Avaliar concessão apenas pela nomenclatura é um erro comum. O aluno pode decorar que "embora" é conjunção concessiva e, mesmo assim, não entender a relação de sentido no texto. Por isso, prefiro avaliar pela interpretação: pergunto qual é a ideia que o autor concede antes de defender seu ponto, e se essa concessão reforça ou enfraquece a argumentação.
Em redações, observo se o aluno usa a concessão para antecipar objeções. Um texto que diz "ainda que existam argumentos contrários, a escola deve ..." mostra domínio do recurso. Quando a concessão aparece sem função argumentativa, costumo comentar na correção.
Questões prontas com gabarito comentado
A seguir estão seis questões reais da base do GeraProva, com alternativas comentadas, dicas de resolução e referências à BNCC. Use-as como modelo ou aplique diretamente em aula.
ENEM - 2017 Declaração de amor
Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. [...] A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo. Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. As vezes se assusta com o imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la – Como gostava de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes a galope. Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo em minhas mãos. E este desejo todos os que escrevem têm. Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar para sempre uma herança de língua já feita. Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida. Essas dificuldades, nós as temos. Mas não fale do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega. Se eu fosse muda e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu queria pertencer, eu diria. inglês, que é preciso e belo. Mas, como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida. LISPECTOR, C. A descoberta do mundo Rio de Janeiro Rocco, 1999 (adaptado). O trecho em que Clarice Lispector declara seu amor pela língua portuguesa, acentuando seu caráter patrimonial e Sua capacidade de renovação, é
- ❌ A) “A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve.” — A frase menciona o desafio da língua, mas não aborda diretamente seu caráter patrimonial ou capacidade de renovação.
- ✅ B) “Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar para sempre uma herança de língua já feita.” — A afirmação destaca que a herança da língua não é suficiente, enfatizando seu caráter patrimonial e a necessidade de renovação.
- ❌ C) “Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê Vida.” — Embora mencione a criação a partir do pensamento, não enfatiza a herança ou renovação da língua portuguesa.
- ❌ D) “Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada.” — Foca na falta de aprofundamento, mas não aborda diretamente a herança ou a renovação da língua.
- ❌ E) “Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse Virgem e límpida.” — Refere-se ao desejo de uma abordagem pura do português, mas não toca na questão patrimonial ou de renovação da língua.
Dica de resolução: analise o texto para compreender a relação da autora com a língua portuguesa. Conceito central: interpretação de texto literário. Conceito para revisão: técnicas de interpretação de textos literários e análise de linguagem figurada. BNCC: EM13LP01, nível de Bloom: Analisar.
ENEM - 2020 Policarpo Quaresma
Policarpo Quaresma, cidadão brasileiro, funcionário público, certo de que a língua portuguesa é emprestada ao Brasil; certo também de que, por esse fato, o falar e o escrever em geral, sobretudo no campo das letras, se veem na humilhante contingência de sofrer continuamente censuras ásperas dos proprietários da língua; sabendo, além, que, dentro do nosso país, os autores e os escritores, com especialidade os gramáticos, não se entendem no tocante à correção gramatical, vendo-se, diariamente, surgir azedas polêmicas entre os mais profundos estudiosos do nosso idioma — usando do direito que lhe confere a Constituição, vem pedir que o Congresso Nacional decrete o tupi-guarani como língua oficial e nacional do povo brasileiro. BARRETO. L. Triste fim de Policarpo Quaresma. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br. Acesso em: 26 jun. 2012 Nessa petição da pitoresca personagem do romance de Lima Barreto, o uso da norma-padrão justifica-se pela
- ✅ A) Situação social de enunciação representada. — Certa, pois a norma-padrão é utilizada para reforçar a posição social e a reivindicação do personagem.
- ❌ B) Divergência teórica entre gramáticos e literatos. — Errada, pois a divergência entre gramáticos e literatos não justifica o uso da norma-padrão na petição.
- ❌ C) Pouca representatividade das línguas indígenas. — Errada, a pouca representatividade das línguas indígenas não é o foco da justificativa do uso da norma-padrão.
- ❌ D) Atitude irônica diante da língua dos colonizadores. — Errada, a atitude irônica não é o principal motivo para o uso da norma-padrão na petição.
- ❌ E) Tentativa de solicitação do documento demandado. — Errada, a solicitação do documento não justifica diretamente o uso da norma-padrão.
Dica de resolução: analise o contexto social e linguístico para justificar o uso da norma-padrão. Conceito central: uso da norma-padrão. Conceito para revisão: estudo sobre norma-padrão e variações linguísticas. BNCC: EM13LGG202, nível de Bloom: Analisar.
Qual das alternativas abaixo exemplifica uma variação linguística em relação ao uso da língua portuguesa no Brasil?
- ✅ A) O uso de 'tu' e 'você' em diferentes regiões do Brasil. — Esta alternativa é correta, pois 'tu' e 'você' são formas de tratamento que variam conforme a região do Brasil.
- ❌ B) A conjugação verbal no passado de forma regular em todos os verbos. — Incorreta, pois a conjugação verbal no passado não varia de acordo com a região.
- ❌ C) A utilização de palavras estrangeiras em textos formais. — Incorreta, pois o uso de palavras estrangeiras não é uma variação linguística, mas sim uma influência externa.
- ❌ D) A troca de gêneros gramaticais em palavras como 'a mesa' e 'o prato'. — Incorreta, pois essa troca não é uma variação reconhecida na língua.
- ❌ E) A escrita de palavras da mesma forma em todas as regiões do Brasil. — Incorreta, pois não representa variação linguística, mas uniformidade.
Dica de resolução: pense em exemplos de diferentes regiões do Brasil. Conceito central: variação linguística. Conceito para revisão: tipos de variação linguística no Brasil. BNCC: EM13LP10, nível de Bloom: Compreender.
ENEM - 2014 Empréstimos linguísticos
A forte presença de palavras indígenas e africanas e de termos trazidos pelos imigrantes a partir do século XIX é um dos traços que distinguem o português do Brasil e o português de Portugal. Mas, olhando para a história dos empréstimos que o português brasileiro recebeu de línguas europeias a partir do século XX, outra diferença também aparece: com a vinda ao Brasil da família real portuguesa (1808) e, particularmente, com a Independência, Portugal deixou de ser o intermediário obrigatório da assimilação desses empréstimos e, assim, Brasil e Portugal começaram a divergir, não só por terem sofrido influências diferentes, mas também pela maneira como reagiram a elas. ILARI, R.; BASSO, R. O português da gente: a língua que estudamos, a língua que falamos. São Paulo: Contexto, 2006. Os empréstimos linguísticos, recebidos de diversas línguas, são importantes na constituição do português do Brasil porque
- ✅ A) Deixaram marcas da história vivida pela nação, como a colonização e a imigração. — Certa. Os empréstimos refletem a história do Brasil, incluindo colonização e imigração, moldando a língua falada.
- ❌ B) Transformaram em um só idioma línguas diferentes, como as africanas, as indígenas e as europeias. — Errada. Embora haja influência de várias línguas, não se transformaram em um único idioma, mas coexistem.
- ❌ C) Promoveram uma língua acessível a falantes de origens distintas, como o africano, o indígena e o europeu. — Errada. A acessibilidade não é o foco principal; a diversidade de influências é mais relevante.
- ❌ D) Guardaram uma relação de identidade entre os falantes do português do Brasil e os do português de Portugal. — Errada. A relação de identidade é complexa e não se resume apenas aos empréstimos linguísticos.
- ❌ E) Tornaram a língua do Brasil mais complexa do que as línguas de outros países que também tiveram colonização portuguesa. — Errada. A complexidade da língua não é uma comparação válida com outras línguas de países colonizados.
Dica de resolução: considere exemplos de empréstimos linguísticos no português. Conceito central: empréstimos linguísticos. Conceito para revisão: importância dos empréstimos linguísticos na língua portuguesa. BNCC: EM13LP01, nível de Bloom: Compreender.
Em um programa de televisão, pessoas de diferentes regiões do Brasil falavam a mesma palavra com sons diferentes, mas todas eram entendidas pelo público. — O fato descrito mostra que a língua portuguesa
- ✅ A) mostra que a mesma língua pode ser pronunciada de modos diferentes, como nos sotaques regionais, sem deixar de ser compreendida. — Esta é a única alternativa compatível com o fato apresentado: há variação de pronúncia, mas a comunicação continua acontecendo na mesma língua.
- ❌ B) mostra que a existência de sotaques regionais prova que há várias línguas portuguesas independentes no Brasil. — O aluno amplia além do que o texto permite. A variação regional não autoriza concluir que existam várias línguas diferentes.
- ❌ C) mostra que a língua portuguesa deixa de ser a mesma quando apresenta pronúncias diferentes entre regiões do país. — O aluno troca variação linguística por mudança de língua. Sotaque não cria outra língua; apenas altera a pronúncia.
- ❌ D) mostra que pessoas de regiões diferentes não conseguem entender a mesma palavra quando ela é falada com sons diferentes. — O aluno se prende ao detalhe da diferença de som e ignora a informação decisiva do enunciado: o público entendia as falas.
- ❌ E) mostra que a compreensão aconteceu porque todos falaram exatamente da mesma forma, sem qualquer diferença de pronúncia. — O aluno inverte a relação apresentada: o enunciado destaca diferenças de pronúncia com compreensão, não igualdade total na fala como causa da compreensão.
Dica de resolução: reconheça que diferenças de pronúncia podem coexistir com a compreensão entre falantes. Conceito central: variação linguística regional. Conceito para revisão: variação linguística e a relação entre sotaques regionais e compreensão mútua. BNCC: EF69LP55, nível de Bloom: Compreender.
ENEM - 2009 Língua portuguesa e contato com outras línguas
Texto I: Acompanhando os navegadores, colonizadores e comerciantes portugueses em todas as suas incríveis viagens, a partir do século XV, o português se transformou na língua de um império. Nesse processo, entrou em contato — forçado, o mais das vezes; amigável, em alguns casos — com as mais diversas línguas, passando por processos de variação e de mudança linguística. Assim, contar a história do português do Brasil é mergulhar na sua história colonial e de país independente, já que as línguas não são mecanismos desgarrados dos povos que as utilizam. Nesse cenário, são muitos os aspectos da estrutura linguística que não só expressam a diferença entre Portugal e Brasil como também definem, no Brasil, diferenças regionais e sociais. PAGOTTO, E. P. Línguas do Brasil. Disponível em: http://cienciaecultura.bvs.br. Acesso em: 5 jul. 2009 (adaptado). Texto II: Barbarismo é vício que se comete na escritura de cada uma das partes da construção ou na pronunciação. E em nenhuma parte da Terra se comete mais essa figura da pronunciação que nestes reinos, por causa das muitas nações que trouxemos ao jugo do nosso serviço. Porque bem como os Gregos e Romanos haviam por bárbaras todas as outras nações estranhas a eles, por não poderem formar sua linguagem, assim nós podemos dizer que as nações de África, Guiné, Ásia, Brasil barbarizam quando querem imitar a nossa. BARROS, J. Gramática da língua portuguesa. Porto: Porto Editora, 1957 (adaptado). Os textos abordam o contato da língua portuguesa com outras línguas e processos de variação e de mudança decorridos desse contato. Da comparação entre os textos, conclui-se que a posição de João de Barros (Texto II), em relação aos usos sociais da linguagem, revela
- ❌ A) Atitude crítica do autor quanto à gramática que as nações a serviço de Portugal possuíam e, ao mesmo tempo, de benevolência quanto ao conhecimento que os povos tinham de suas línguas. — João de Barros não demonstra benevolência, mas sim uma crítica aos vícios das línguas não europeias, portanto, está errada.
- ❌ B) Atitude preconceituosa relativa a vícios culturais das nações sob domínio português, dado o interesse dos falantes dessa línguas em copiar a língua do império, o que implicou a falência do idioma falado em Portugal. — Embora Barros critique os vícios, ele não menciona a falência do idioma em Portugal, mas sim a imitação das línguas dominadas, portanto, está errada.
- ❌ C) O desejo de conservar, em Portugal, as estruturas da variante padrão da língua grega — em oposição às consideradas bárbaras —, em vista da necessidade de preservação do padrão de correção dessa língua à época. — Barros não se refere à língua grega, mas sim à língua portuguesa e suas variações, portanto, está errada.
- ✅ D) Adesão à concepção de língua como entidade homogênea e invariável, e negação da ideia de que a língua portuguesa pertence a outros povos. — A alternativa correta, pois Barros acredita na homogeneidade da língua portuguesa, desconsiderando as variações das línguas dos povos colonizados.
- ❌ E) Atitude crítica, que se estende à própria língua portuguesa, por se tratar de sistema que não disporia de elementos necessários para a plena inserção sociocultural de falantes não nativos do português. — Barros não critica a língua portuguesa por falta de elementos, mas sim os vícios de pronunciação das línguas não europeias, portanto, está errada.
Dica de resolução: compare as ideias dos textos para entender a evolução e variação da língua portuguesa. Conceito central: variação linguística; história do português. Conceito para revisão: história da língua portuguesa e os conceitos de variação e mudança linguística. BNCC: EM13LP01, nível de Bloom: Analisar.
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Fontes
- Base Nacional Comum Curricular (BNCC), Ministério da Educação: basenacionalcomum.mec.gov.br
- Questões do acervo GeraProva sobre Protocolos de leitura, com resolução comentada e análise de cada alternativa.
